Auleira* / Sandra Mara Corazza

—No moriré fácilmente, soy una Guerrera del Aula.1
—Si lo eres, lucha contra la inmovilidad.
—Lo haría, pero ¿cómo cruzar los límites de la Fantasía del Aula?
—La Fantasía no tiene límites…
—Eso no es verdad; ¡mientes!
—Tonta, aún no te has dispuesto a vivir la Fantasía. Es el mundo ilimitado de las diferencias.
—Entonces, ¿por qué agoniza la Fantasía del Aula?
—Porque sin ella, los Auleiros son fáciles de arrebatar, despojar, entristecer, aniquilar.
tu Aula
se clava en la gran tierra callosa del mundo de la poesía
hecha de cielos mares estrellas dioses diamantes hierbas hombres
allí canta el ruiseñor de Keats
de 17 años Rimbaud realiza el primer experimento
toca paisajes escribe vértigos
inventa el barco

(De un momento a otro, todo oscurece, Auleira enciende una vela. Un fantasma del Aula flota hacia la llama y cae muerto. Antes de cerrar el Cuaderno de Notas y de soplar la vela, ella todavía tiene tiempo de pronunciar una frase del Padre Antonio Vieira: «Lo siento por tan larga clase, pero no tuve tiempo ni coraje para hacerla breve»).

encuentras a Alberto Caeiro maestro de los heterónimos
salido un poco del escritorio anuncia que
un Aula camina hasta
donde el arroyo brota de las raíces
detrás viene Fernando Pessoa murmurando
el Aula imita o miente en todo lo que crea
siente con la imaginación

en las alturas Archibald MacLeish dibuja su Ars Poetica
una clase debe ser palpable como un fruto redondo
o como viejos medallones entre los dedos
tiene que ser callada como la luna que aparece
debe ser y no significar
en las alas de las perdices Pablo Neruda canta el Poema xviii
las aulas no se descartan ni se suman
arden de dulzura y se enfurecen

en el exilio Murilo Mendes se retuerce de la risa con
las clases en familia que tienen como testigo a la Gioconda

en el sótano Baudelaire baja el Aula de los cielos
en sus alas impregnadas de sal
Mallarmé se embarca para ir a la fiesta creadora
en la que suena el violín de Verlaine

 

en la biblioteca Jorge Luis Borges anuncia
amamos las Aulas que no conocemos y que olvidamos
las antiguas no nos decepcionan porque son mito y esplendor
las formas mutantes de las clases urdidas con lo que se ha postergado
y que apenas desciframos

en el periódico Aurora Walt Whitman invita a asistir a sus clases
para tomar lo mejor que ellas tienen
pues necesitan del contacto con almas y cuerpos

en el balcón Apollinaire suplica que el Aula sea los obuses de los boches
para matarla de súbito amor

el Aula no es ni nunca será sobriedad
se hace exceso exageración desmesura desmedida orgía

en ella se oye la Canción de la inocencia de William Blake

las Aulas de la noche con sus patas colosales
galopan entre las viñas
buscando los escombros del paisaje que fue Hilda Hilst
en sus rincones secretos

Manuel de Barros recita pactos
y Proust oye aves en las clases de Beethoven

Hokusai suplica tener ciento diez años de vida para que toda Aula
quepa en un puntito de su pincel de pelo de marta

en el Aula delirante la Educación vive abierta
el Cementerio Marino de Valéry contempla
el día que incendia el mar
se reanuda siempre
y es recompensa después de pensar

Florbela Espanca sueña en una Aula la vanidad de ser la poetisa elegida
cuanto más alto vuela se despierta del sueño y nada es

El hombre sin atributos de Musil cuenta en clave que
el mejor escondite del Aula es el plan

en la búsqueda eterna de la poesía
Drummond invita
llega más cerca y contempla las Aulas
cada una tiene mil caras secretas bajo la cara neutra
sin interés indaga por la respuesta pobre y terrible que le diste
¿trajiste las llaves ?

entonces le dices que no las tienes
sólo poemas de luz en la fuente
imposibles de medir objetivamente
como velas en un cuarto oscuro se ven brillantes pero jamás serán el sol

con Mário Faustino las Aulas
están contra el peso del mundo y la pureza de los ángeles
tienen alma cantora y risueña
imantada por luces y canciones
vibra y palpita el ritmo contra los ojos huecos de la muerte
son armas cargadas de futuro

nuestra Aula
apunta directo a los pechos flechas de poesía
lanza intenciones piadosas
no pide definiciones precisas
nunca ordena
«va por ahí »

huracán frenético que se desata
ola del mar que se eleva
un átomo más que se anima

pecados sin adornos veredas de escamas
papeles húmedos de tinta desiertos de girasoles ríos de anochecer
abismos sangrientos que tocan el fondo
amor de suicidas que se matan sin explicación
más allá de sus penas

Aula
canta tus poemas
como el aire trece veces por minuto
para originar impulsos valentía herramientas
en la fertilización de tantas otras

 

Referencia
Lessing, Doris, El cuaderno dorado, trad. de Sonia Coutinho y Ebréia de Castro Alves, Círculo del Libro , São Paulo, 1972.

Versión del portugués de Jonathan Alexander España Eraso

Auleira*
—Não morrerei tão facilmente, sou uma Guerreira de Aula. / —Se és uma Guerreira, luta contra o Imobilismo. / —Até o faria, mas como cruzar os limites da Fantasia de Aula? / —Ora, Fantasia não tem limites… / —Isto não é verdade; mentes! / —Tonta, não te dispuseste ainda a viver a Fantasia. É o mundo das diferenças; logo, é ilimitado. / —Mas, por que a Fantasia de Aula agoniza, então? / —Porque sem ela, os Auleiros são mais fáceis de arrebanhar, despojar, entristecer, aniquilar. // tua Aula / crava-se na grande terra calosa do mundo da poesia / feito de céus mares astros deusas diamantes ervas mortais / ali onde canta o rouxinol de Keats // Rimbaud com 17 anos faz o primeiro experimento / toca paisagens escreve vertigens / inventa o barco // encontras o mestre dos heterônimos Alberto Caeiro / saído a pouco do escritório na Baixa que diz / passa uma Aula adiante / onde o arroio brota das raízes // e atrás vem Fernando Pessoa ele-mesmo resmungando / dizem que a Aula finge ou mente tudo o que faz / simplesmente sente com a imaginação // num promontório Archibald MacLeish desenha sua Ars Poetica / uma Aula deve ser palpável como um fruto redondo / ou velhos medalhões ao toque dos dedos / deve ser calada como a Lua subindo / deve ser e não significar // nas asas das perdizes Pablo Neruda canta o Poema xviii / Aulas não se descartam nem se somam / ardem de doçura e se enfurecem // no exílio Murilo Mendes estrebucha de rir com / Aulas em família que têm por testemunha a Gioconda // na água-furtada Baudelaire baixa a Aula do seu reino aéreo / em cujas asas encharcadas de sal / Mallarmé embarca para ir à festa possível / lá onde soa o violino de Verlaine // na biblioteca Jorge Luis Borges sussurra / amamos as Aulas que não conhecemos e as já perdidas / as antigas que não nos decepcionam mais porque são mito e esplendor / as mutantes formas de Aulas feitas do que foi esquecido / e que mal deciframos // no jornal Aurora Walt Whitman convoca a virem a si as suas Aulas / tomarem o melhor que ele tem / pois precisa demais do contato com almas e corpos // e na sacada Apollinaire suplica
a será de sobriedade / mas do excesso exagero desmesura desmedida orgia // nela ouve-se a Canção da inocência de William Blake // as Aulas da noite soberbas altas com suas patas / galopam entre as vinhas / à busca dos escombros da paisagem que foi Hilda Hilst / em seus recantos e desvãos //  Manuel de Barros recita avencas / e Proust ouve aves e beethovens de Aulas // Hokusai pede cento e dez anos de vida para que toda Aula / caiba num pontinho do seu pincel de pêlo de marta // na Aula dementada em que a Educação vive aberta / do Cemitério marinho Valéry contempla / o dia que incendeia o mar / que recomeça sempre e é / recompensa depois de um pensamento // 
Florbela Espanca sonha na Aula a vaidade de ser a poetisa eleita / e quanto mais no alto voa acorda do sonho e nada é // o Homem sem qualidades de Musil segreda que / o melhor esconderijo da Aula é o plano // à procura eterna da poesia Drummond convida/ chega mais perto e contempla as Aulas / cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta sem interesse pela resposta pobre ou terrível que lhe deres / trouxeste a chave? // então lhe dirás não há /  só poemas luminescentes de radiação luminosa na fonte / impossíveis de medir objetivamente / como velas num quarto escuro parecem brilhantes mas jamais à luz do sol // com Mário Faustino as Aulas / vão contra o peso do mundo e a pureza dos anjos / têm alma cantante e risonha / imantada por luzes e sons / pulsam e palpitam o pulso contra os olhos vazios da morte / são armas carregadas de futuro // nossa Aula / aponta setas de poesia direto para os peitos / tira intenções piedosas / não pede definições precisas / nunca ordena «vai por aí» // vendaval louco que se solta / onda do mar que se eleva / um átomo mais que se anima // pecados sem adornos veredas de escamas / papéis úmidos de tinta desertos de malmequeres torrentes de pôr-de-sol / abismos sangrentos que tocam o fundo / paixão de suicidas que se matam sem explicação / para além de suas penas // Aula / canta teus poemas / como o ar treze vezes por minuto / para trazer impulsos coragem ferramentas / na fertilização de tantas outras

*
(Nisto, faltou luz. A Auleira acende a vela. Um fantasma de Aula flutua em direção à chama e cai. Morto. Antes de fechar o Caderno de Notas e de assoprar a vela, ela ainda tem tempo de variar uma frase do Padre Antonio Vieira:«Desculpe por tão longa Aula; mas é que não tive tempo nem peito de fazê-la breve»).

 

Referência
Lessing, Dóris, O carnê dourado, trad. de Sônia Coutinho e Ebréia de Castro Alves, Círculo do Livro, São Paulo, 1972.

1     Se conserva la acepción de aula que, en el contexto discursivo que se aborda, se dimensiona como lugar de aprendizaje, de apertura educativa y de donación en devenir incesante.
        Auleiro es un profesor que hace/desarrolla/fabrica/produce las clases como poesía o sueño.

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